Paz na Quinta Avenida

Paz na Quinta Avenida

Atibaia. A cidade fundada por bandeirantes no século XVII foi parada obrigatória para os estradeiros em direção à Minas Gerais e seus tesouros escondidos. Você já deve ter ouvido falar da Rodovia dos Bandeirantes, Rua dos Bandeirantes, canal de TV Bandeirantes e do Palácio dos Bandeirantes. A história fabricada sobre os “heróis paulistas” deu certo. Nomes de escolas, monumentos e inúmeras estátuas estão espalhados pela grande São Paulo.

As longas travessias dos piratas do sertão que matavam e escravizavam índios era longa e árdua. Em fila indiana, homens brancos, mamelucos e milhares de índios domesticados marchavam descalços centenas de quilômetros e viviam selvaticamente. Além de pouso, a jornada exigia muitas paradas para descanso e reabastecimento. Seria este vilarejo o lugar ideal para uma trégua? Uma breve busca pela paz?

Presenteei minha mãe com uma viagem em seu aniversário de 58 anos e a cidadezinha à 70km de São Paulo foi o destino sorteado. Mamãe escolheu Nova Iorque mas o budget calculou até Atibaia; um studio equipado com lareira, frigobar, TV por assinatura, banheiro e duas camas de solteiro com edredom 100% pluma de ganso (importante para quem acorda vizinho com espirro). A varanda externa do studio com vista para natureza e o fácil acesso para o prédio principal do hotel fazenda com requinte europeu completavam o pacote de três dias com café da manhã incluído.

O presente foi um convite a minha mãe para ficar em silêncio comigo e quando chegamos, o modesto hotel ecoava nossos primeiros passos. A estadia fora da alta temporada de férias proporciononava o ambiente ideal para a busca do nirvana. Muito diferente daqueles resorts nordestinos classudos que para participar de um trenzinho em ritmo de conga ou dançar a macarena você precisa reservar com um mês de antecedência seu lugar na pista. Jamais alguém alcançaria a iluminação num lugar desses. Em Atibaia, ainda tínhamos alguma chance ao sair do condomínio fechado, trocar a selva de concreto pelas trilhas pré-históricas, o cinza pelo verde, esquecer das redes sociais, da pressa dos outros e ficar longe (não tão longe) de tudo. Ansiava por um pôr do sol desses que parece post de influenciador digital nômade e de tomar um banho de lua — obscena de tão grande e brilhosa. Três dias pareceu-me um tempo razoável para urbanóides devotados descarregarem do ombro o peso da metrópole, zerarem os pulmões e ouvirem a própria respiração nesse lugar chamado “Recanto da Paz”.

Desculpe dizer, impaciente leitor, mas o fim do sofrimento e a busca incansável da iluminação não é igual para todo mundo. Buda precisou da sombra de uma figueira e 49 dias para chegar lá. A paz interior do Sidarta não só é diferente da minha, mas também é diferente da minha mãe e diferente da sua, caro leitor. Eu, por exemplo, com o celular desligado por três dias e um livrinho de poesia no bolso já basta. Para minha mãe, a iluminação vem da árvore de natal no Rockefeller Center, do reflexo das vitrines na quinta avenida e do cenário “O Rei Leão” na Broadway — nessa ordem. Para Gabriel, o Pensador, a paz é o cachimbo. Sentiu a diferença?

Há sete bilhões de pazes nesse mundo, será que não podemos concordar em algumas? Na aguardente? No best seller de autoajuda? Na posição do ioga? Ou no arranjo de flores? No básico.

Com o celular desligado e trancado junto com o controle remoto da TV por assinatura na gaveta do quarto, eu estava pronto para ouvir o silêncio das árvores.

-Desliga o celular mãe! Vamos fazer uma trilha, que tal? — focada na telinha, os dedinhos miúdos inchados de cortisona tinham vida própria.

-Oi filho, estou desativando as notificações. Não quero receber mensagens de ninguém...senta um pouco aqui na varanda comigo, está muito gostoso! — sentei e lá ficamos por três dias. Eu, com os conselhos do poeta, ela, com os batuques do algoritmo.

-Fê, essa viagem está tão linda! No meu aniversário de 60 anos você vai me levar na Broadway?

Seu aniversário foi assim, cheio de paz.

Crônica publicada pela editora Dedalus:

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Conto A Gotas é uma antologia com escritores de todo o país retratando os mais diversos tópicos da natureza humana.