Panos de Prato

Panos de Prato

Depois da morte da tia Nilde, minha mãe trancou-se no quarto por duas semanas. Duas semanas não recebeu ninguém. Enquanto tia Nilde emudecia-se para sempre, a irmã gritava pelo seu nome, fora de si, atordoada. As irmãs não se falavam há mais de duas décadas. Lembrei do meu pai. Será que também o encontraria pela primeira vez num corpo que não vive?

Desde a primeira infância até a juventude convivi num sobrado com as dimensões de uma caixinha de fósforo. Lá dentro, quase tudo era permitido — político, policial militar, traficante, empresário, pintor de parede, frentista, taxista e toda a escória do bairro. Essa era a família que eu conhecia. Tia Nilde e meu pai nunca visitaram o sobrado, mas diariamente ocupavam a imaginação de uma criança.

Quando eu tinha uns seis ou sete anos, comecei a questionar minha mãe sobre a família. Cadê o papai? Onde estava todo mundo? Por que ninguém me vê? Exilada da minha própria vida, passei anos exercitando a paciência e instigando uma resposta, mas ela disfarçava quando eu tocava no assunto. Muitas vezes, ela respondia irritada. “Seu pai era um velho que fazia promessas”. “Sua tia fugiu porque é uma mulher invejosa, mas não invejosa como os outros, muito pior do que você imagina!”. “Esquece isso! Heitor não vai voltar!”. “Eu faço isso para te proteger. Tia Nilde me arrancou tudo! Eu não vou deixar ela fazer o mesmo com você”. Eram respostas ásperas, automáticas, capazes de silenciar uma criança — pelo menos por um tempo. Meu pai Heitor e tia Nilde foram pintados como numa dessas telas abstratas — onde o espectador busca sentido em linhas tortas, rabiscos e borrões de tintas. Eu era essa espectadora.

Lembro de um domingo, quando resolvi imitar minha mãe e diante do espelho, já de peito nascendo, pintei os lábios e os olhos pela primeira vez, uma tentativa de burlar a infância. “Vai lavar esse rosto. De putas, esta família já está cheia”. Com o rosto borrado e chorando como uma criança, obedeci porque cabe aos filhos obedecerem suas mães, e não questioná-las. Foi quando comecei a espiá-la. Por trás da porta do seu quarto, ouvia suas aventuras com desconhecidos na esperança de agarrar uma confidência, algum desabafo, um único deslize que revelasse uma intimidade entre mãe e filha. Mas os ruídos abafados e as rotações do ventilador de teto tornavam impossível diferenciar um gemido falso de uma confissão verdadeira. Minha mãe, sem deixar vestígios, desaparecia naquele sobrado. Eu só dava conta de que não estava sozinha porque o rumor dos chinelos de borracha arrastavam o chão. Como uma cortesã, ela reaparecia vestindo apenas calcinha e sutiã de cores berrantes, com cigarro e goma de mascar na boca. E assim a vontade, era novamente uma mocinha. Não tinha vergonha de viver daquele jeito?

Os dias passaram. Aquela época eu tinha uns dezessete anos, não mais do que isso, e numa tarde quando dois homens se trancaram no quarto com minha mãe, vasculhei o resto do sobrado por algum pergaminho secreto, um número de telefone, um bilhete, uma foto — alguma verdade que pudesse me tirar dali para sempre. Eu tinha medo de deixar algum vestígio ou violar alguma regra adulta desconhecida. As palmas suadas abriam e fechavam armários com destreza, e no meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto abre e fecha, ali estavam — fotos confinadas no fundo de uma gaveta na cozinha. Elas traziam revelações e desvendavam mistérios que desde criança sacudia o meu pensamento. Porque minha mãe guardava um segredo como quem guarda um pano de prato?

Com cuidado, separei as fotos, todas antigas, quase coloridas e numa delas, duas moças — duas irmãs, no tronco de uma jaqueira. Pareciam gêmeas não fosse a diferença de idade. Minha mãe, com o mesmo corpo fino, forte, desviava o olhar tímido e abraçava uma versão mais nova de si mesma. A caçula, com pele azulada de tão preta, mostrava os dentes brancos entre os lábios carnudos e seus olhos verdes enormes seduziam a câmera. Seu sorriso insinuante e o corpo cheio de curvas roubavam a cena. Tia Nilde me pareceu ter uma beleza tão insuportável que havia um desconforto no rosto da primogênita.

Depois do episódio, passamos alguns dias se divertindo como fazem as mães e as filhas normais, contando piadas e assistindo à televisão juntas. E quando minha mãe se enclausurava novamente, fechada no quarto com algum desconhecido, eu gozava do tempo até que seus clientes secassem — dez, quinze minutos para eu investigar o passado que a gaveta da cozinha abrigava. Eram fotografias num cenário idílico — um quintal arborizado, jaqueiras largas que suportavam uma rede de balanço extensa, um quintal de uma casinha de madeira com janelas verdes. Algumas fotos, com palavras escritas no verso, ampliavam ainda mais esse quebra-cabeça, como fragmentos de correspondências compostas por imagens do passado. Mas a minha leitura atenta ajudou a evidenciar o que eu já suspeitava. O fotógrafo era meu pai.

Heitor aparecia em algumas das fotos, sempre ao lado da tia Nilde, enquanto minha mãe (acho eu) operava a câmera dele em seu lugar. Era um rapaz de sobrancelhas grossas, arqueadas, sempre vestindo um terno de linho branco impecável. Negão com olhos acizentados que se acendiam ao lado de tia Nilde. Olhos que eu fitava pela primeira vez.

Eu conversava com as imagens. Observava tia Nilde, olhava para as fotografias da minha mãe e beijava o rosto de Heitor no papel fosco. Isso seguiu por semanas, assim como os sonhos que me visitavam durante as noites — eu corria em volta da jabuticabeira perseguindo minha mãe. Meu pai e tia Nilde estavam deitados na rede como dois jovens domados, à espera do fim do mundo. Os dois, juntos no sonho, sempre na rede sombreada. Mas ao regressar à realidade, com o corpo molhado de suor e a cabeça alucinada, me perguntava o significado dessas imagens. Seriam oráculos me preparando para o futuro? Ou enigmas do passado que revelavam-se quando fechava meus olhos? O banho frio dava choque para recuperar os pensamentos e depois trocava o lençol da cama para na noite seguinte tudo voltar a se repetir.

Até uma manhã escura quando acordei assustada. O cheiro de fumaça guiou-me até a sala, onde encontrei um latão de ferro aceso e minha mãe acordada. Ela rasgava fotos e papéis. Alimentava o fogareiro, as mágoas e o arrependimento. “Tia Nilde morreu”. Disse a queima-roupa, sem conter as lágrimas e a firmeza. Apesar de serem apenas fotos, era a primeira vez que a família estava reunida. Hipnotizada pelas fagulhas, eu via em cada pedacinho de papel queimado uma parte de mim. Tinha as sobrancelhas do meu pai, o corpo fino da minha mãe e os olhos coloridos da tia Nilde.