Os Segredos de Robert

Os Segredos de Robert

-Quer mais suco? Beba alguma coisa.

-Não, obrigada.

-Pois bem. Fumo um cigarro e conversamos. Tome nota. O que tenho para contar-lhe é um segredo.

-Vovô…

-Diga.

-Posso depois tirar fotos da Barbara?

-Suas tolices, Clémentine…a partir de amanhã a câmera será sua. Passado mais de um quarto de século fotografando já são mais de 300 mil imagens. Dessas, talvez somente trezentas irão perdurar no tempo. Cada foto demorou um centésimo de segundo para bater, isso representa um total de três segundos de fama. Não é muito, mas foi o suficiente para assumir o meu compromisso. Vou-me aposentar.

-Como assim?

-Eu lhe digo. A foto do beijo virou ímã de geladeira, quebra-cabeça, caneca, cartão postal e pôster pendurado em quarto de estudante! Não percebe? Vende-se o símbolo do romantismo juvenil parisiense, manufaturado por mim e distribuído pelo capital.

-Isso não é bom? Você vai ficar famoso!

-Ganho dinheiro, isso é bom. Mas saiu no jornal outro dia mesmo, um cidadão qualquer afirmando, “Doisneau capturou o momento certo do meu beijo com a minha esposa no meio da rua”. Calúnia! Infâmia! Canalha!

-Vô! Estás a dizer a palavra feia!

-Mas vejamos. Você conhece esse tal homem? Pois nunca o vi em minha vida e desconheço de sua existência! Eu lhe digo Clémentine… a foto do beijo do casal enamorado entre a Rue de Renard com a Rue de Rivoli, o Hôtel de Ville ao fundo em segundo plano desfocado, o pequeno detalhe da dianteira do Peugeot em movimento e as costas de um homem misterioso sentado num café de calçada fitando os amantes… tudo isso não passava de uma cena encomendada por uma revista americana. A ação foi dirigida por mim como num set de filmagem.

-O beijo foi de mentirinha então?

-Ah minha doce Clémentine…esse beijo é tão azedo como o vinho que está em meu copo. Foram dois dias ensaiando, procurando o lugar ideal. Caminhamos por Paris, de Tuileries a l'Opéra até finalmente o Hôtel de Ville, onde pedi para o casal de atores posarem. Eu jamais ousaria fotografar pessoas assim. Amantes se beijando na rua, esses casais não são legítimos! Eis a verdade Clémentine! Em tempos passados estava a gripe entre as trincheiras, hoje a peste está em porta-retratos. Eles virão atrás de mim.

-Eles quem?

-Todos! O casal, os jornais, as revistas, os inimigos, os amigos…Bresson, Giraud, Kertész, Prévert…

-Eu também sou sua amiga vovô!

-Suas tolices, Clémentine…só você para me fazer sorrir nesse mundo. As poesias que carregava no pescoço aparentavam imagens naturais, espontâneas com traços de uma sensibilidade aguçada, mas não. Eram frutos de um esquema pensado, orquestrado, esboçado e ensaiado diversas vezes, em diferentes lugares com diferentes atores e atrizes. As vezes precisava esperar horas escondido, como um espectador à espreita, paciente em busca da cena mágica, um momento único, uma imagem idealizada…então disparo a sequência como uma chuva de flechas! Mas essa série de imagens são sujas, flechas envenenadas com a realidade. Para que o veneno do mundo não se espalhe, eu as descarto rapidamente. Assim posso recria-las com minha imaginação.

-Que profissão difícil!

-Fotografar a realidade não paga as contas. Não tiro fotos da vida como ela é, mas sim de como gostaria que ela fosse. O pescador de imagem de fato pesca a imaginação e a fantasia. Recriar os desejos, as ironias, o banal, o humor, a nostalgia e as tragédias do mundo com sutileza e naturalidade é conjugar o verbo fotografar. Precisamos acreditar no progresso, no romântico, no futuro, só assim pescamos a imagem idealizada. Beijar nas ruas de Paris naquela época entre guerras era revolucionário, entende? Quando eles descobrirem tudo isso eu vou me transformar de poeta de rua para voyer traidor. Um fotógrafo suspeito em busca de reconhecimento comercial. Un capitaliste! A rua será minha ruína Clémentine.

-Posso pedir mais um suco?

-Beba alguma coisa, qualquer coisa. A mocidade que vejo brilhando no fundo dos teus olhos de menina é a eternidade. A minha vista está cansada mas a Rolleiflex de lente dupla permanece em excelente estado. Guarde-a com carinho, assim como meus segredos. Farás bom proveito. Não esqueça…por mais tecnológica que seja, por mais rápida que atire, por mais nítida que a imagem se revele…a câmera só é capaz de enxergar através dos olhos de quem a opera. Enquanto seu olhar curioso continuar a brilhar e ofuscar a imperfeição da lente mecânica, você baterá maravilhosas fotografias Clémentine. Crescer é tornar-se aquilo que você tinha esperança de evitar. A velhice neste país que não reconheço como o meu país de sessenta anos atrás inquieta meu espírito. Vão-se os anos, ficam os desejos. Pesa-me carregar o sentimento do mundo no pescoço…estás a ouvir algo Clémentine?

-Desculpa, me distraí com a Barbara embaixo da mesa.

-Escute. Amanhã ao entardecer venha a meu apartamento. Sobre a mesa da sala você encontrará a Rolleiflex. Logo embaixo, uma carta endereçada a sua mãe. Entregue à ela quando voltar para sua casa. Clémentine…obedeça sempre seus pais, nunca a mim ou a sua nova câmera. Quando chegar, Barbara estará dormindo mas ficará muito feliz em revê-la. Aproveite para levá-la passear, é o horário dela.

-Você não vai tá em casa vovô?

-Não. Estarei no topo la tour Eiffel.