Espero o Amanhecer

Espero o Amanhecer

Só um individuo como eu, de alma vazia para sentir um calafrio vagabundo como este enquanto fico excitado, imaginando o corpo nu da minha menina mulher balançando na rede entre as jaqueiras.

Angustiante esta tarde quente. Tudo abafado, molhado. Parece mais com o inferno.

Cai no conto da paciência, do esperar eternamente pelo seu retorno que nunca aconteceu. No inferno é assim, a eternidade dura muito tempo. O velho valentão, um cobiçador, o conquistador de putas, agora atordoado, um absurdo esse período de abstinência para alguém de devoção louca como eu. Seria isso um adeus aos tempos que nos arrepiávamos de prazer por todos os cantos deste barraco imundo?

Puta. Ladra. Levou o pouco de dignidade que me restava e só me deixou com as migalhas podres da velhice, a rede vazia deixada as traças e o suor de uma pele em decomposição. O melado salgado pouco a pouco me corrói, me incomoda, mas nunca o sabor dos nossos corpos em transe. Que saudades do sorriso branco malicioso, dos olhos verdes de gato selvagem e das pupilas dilatadas que davam o sinal para o ataque—la vai a gente cair da rede outra vez. Isso me queimava de prazer. Não me deixava dormir sossegado, mas agora o sossego me acossa e penso nela toda hora, sem panos e sem pudor. Todo dia, toda tarde, toda noite era hora de prostituição agitada com essa minha menina mulher. Quanta vivacidade e quentura num corpinho tão pequeno e delicado.

Desde o seu abandono, me encontro entorpecido pelos cantos da casa, tremendo, suando, fatigado pela espera eterna e pela esperança de jovem iludido em corpo de velho ordinário. Mal conseguia comer, esmorecia, cada vez mais distante da rede esfarrapada que não balança mais, do quintal sujo, maltratado, coberto por jacas podres e folhas secas.

Conto Publicado pela editora Metamorfose: