A piscina

A piscina

Todos entravam menos ele. O menino não sabia nadar e não quer aprender depois daquela tarde mística, marcada pelo calor de pedras faiscantes à beira da piscina.

Homens, mulheres, jovens e adolescentes mergulhavam um por um. Seguiam a sagrada ordem estipulada por Andrei, o eloquente orador com voz de querubim. No meio de tanto louvor e de tanto sol, ali estava o menino junto ao resto da multidão. E no meio de tantos homens, mulheres, jovens e adolescentes, de tantos crentes molhados, de tantos crentes secos — lá estava o mesmo menino, ovelha negra fora d’água entre fiéis enlouquecidos.

Brasileiros em busca da salvação oravam em coro pelo Senhor. Compartilhavam seus pecados e arrependimentos enquanto comiam, bebiam, cantavam e mergulhavam naquela imensidão de terra que Deus concedia a Glória e Edu. Vereador da província, Edu era conhecido como Edu Faz Milagre. Glória, que não era vereadora, era conhecida como mulher do Edu Faz Milagre. Abençoados pela generosidade, os guardiões do Jardim Divino abriam os portões do paraíso para a salvação de um rebanho que chegava com seus carros importados em busca da paz, saúde e prosperidade. Edu e Glória recebiam cada devoto com corações e bolsos abertos. Nos dedos, além da aliança de ouro branco gravada com alguma frase religiosa, o casal distribuía um pequeno mapa com os principais pontos de interesse na chácara; onze chalés, três campos de futebol, duas quadras de tênis, salão de jogos, duas churrasqueiras, sauna, cafeteria e um oceano modelado em piscina. Pôsteres com o cronograma das atividades dividiam a paisagem com alongadas palmeiras espaçadas ao redor dos terraços e arbustos esculpidos adornavam o relevo do jardim babilônico. Alguns cristãos vinham com a mala feita, benção exclusiva do pacote premium; fim de semana completo com tudo incluído. Não foi o caso da família do menino. Sua mãe tinha viagem marcada para o dia seguinte. Sorte a dele! Graças a Deus!

A família menos um decidiu selar o compromisso com a fé nesse grande encontro a favor de Jesus. O garoto vivia seus anos rebeldes e a última coisa que desejava era selar algum compromisso com alguém. “Você é a ovelha negra da família!” — dizia sua mãe. “Não tem Deus no coração? É um ateu!” — afirmava o pai. “Pior pra você! Deus tá veno tudo!” — importunava a caçula.

Talvez por mera coincidência, a ordem das perguntas determinava a ordem de entrada na piscina e a ordem de entrada na piscina decretava o destino da vida de cada um. Assim sucedeu-se.

A mãe do menino rebelde era a primeira à entrar no oceano clorado. Com o rosto lavado em lágrimas abraçava Andrei pela última vez. Quase um ano depois, afastava-se da congregação — ou melhor, não era bem vinda, muito menos bem vista. Perdia a riqueza e o clube exclusivo dos executivos de Deus não lhe garantia mais acesso ao paraíso. Empobreceu. Fugiu (há boatos) com o troco que lhe restava e com um corpo jovem vinte anos mais novo. A última informação é que moram em alguma eco-comunidade auto-sustentável em algum canto na divisa da mata atlântica com o cerrado.

Depois era a vez do pai na água. Gordo, quase calvo, a cabeça pelada fluía com naturalidade sob a superfície. Que mergulho! Andrei estufava o peito e tocava o céu. “Mais um na conta do Senhor.” — Sussurrava para algum ouvido imaginário. Sem completar um ano de piscina e depois do abandono da esposa, o pai do menino caiu junto com a tristeza num buraco de solidão. Num corpo quase idoso e uma mente quase sã (há boatos), o espírito enlutou-se. As flores não brotavam no quintal, árvores não davam mais frutos, o vinho azedava no copo, a ferrugem corrompia o ferro do sangue e o céu escurecia. O pai endividava com a noite e criava inimigos. Rastreado, não demorou. Acharam seu corpo dentro de um saco na beira de um riacho perto da represa na cidade vizinha. Que Deus o tenha.

O último membro da família que entrava na piscina e bebia da mesma água você já sabe quem era: a caçula. Parecida com o pai, quase gorda, quase calva, meio estabanada emergia da água com olhos ardentes de fé e o rosto assombrado. “Andrei, o torturador do bem” — suspirava junto com o soluço. A irmã do menino rebelde seguiu os passos da mãe, do pai e de um destino fadado. Carregava a cruz sozinha e completava um ano de juramento na crença quando sofreu um derrame. Não tinha mais cabelos nem o movimento do corpo — síndrome do encarceramento. Falava com si mesma e com os olhos. Uma piscada sim, duas piscadas não.

Naquela tarde memorável, diante do mormaço, o menino enfastiado testemunhava a fé de sua família molhada e o pacto que selavam com destinos já traçados. A vida, para o menino, dava outros sinais — o primeiro veio do céu. Logo após os mergulhos da familia, um toró dos diabos despencava sobre os crentes. A chuva estalava no metal dos carros importados, as nuvens ressoavam deuses desconhecidos e as orações em coro emudeciam. Todos buscavam abrigo. Menos ele, o menino rebelde. Sentou-se na beira da piscina e pela primeira vez, abriu um sorriso. A sua vez de banhar-se chegara.