A Casa de Madeira

A Casa de Madeira

Não havia livros na casa de madeira. No máximo algumas enciclopédias empoeiradas e o Guinness World Records de 1992. A mídia favorita era a televisão até a chegada do Intel Pentium II — meu primeiro computador.

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Num país de não leitores aprendi a ver tevê e depois a falar. Hoje temos o tablet — que sorte das nossas crianças! A literatura traumatizou quando obrigava-se a ler textos que não entendia, palavras que não conhecia, poemas que não rimavam e autores que não respiravam. Como todo ensino médio, o objetivo é simples; obedecer as regras, decifrar os enigmas e decidir o futuro da sua vida profissional às pressas. Como fui um aluno mediano excepcionalmente bem sucedido, logo na sequência veio o bacharelado em Publicidade e Propaganda com ênfase em Marketing — título grande, como os egos do resto da trupe.

A ego trip durou doze anos. Saí do Brasil e sentei dentro de um ônibus com uma mini biblioteca ao lado do assento. Nesse país de leitores aprendi a ler. Publicitário no exterior lê e fala inglês. Cool?

Carregava best seller da seção business na mochila e achava todos brilliant. Workaholic, trabalhava oitenta horas por semana. Eram calls com clientes que mandavam feedback diariamente e account managers puxa-saco do inimigo. A cada duas horas tinha follow-up com o creative director porque o azul do layout precisa de mais cyan. Um pesadelo por dia ou um desastre por semana. Toda segunda-feira de manhã acontecia o team meeting. Pior que o team meeting foi o burn out. A solução foi um ano sem trabalhar recebendo state workfare e fisioterapia semanal para recuperar os músculos atrofiados das costas e ombros.

O corpo pediu arrego e a alma pediu o ócio e o tédio. Veio a imaginação — coisas de ser humano. Paulatinamente troquei Seth Godin por Sócrates e o powerpoint por cinema.

INT. QUARTO - HOSPITAL - DIA

LEITO 23, FERNANDO e seu IRMÃO estão ao lado da mãe. Deitada na cama, ela descansa eternamente.

Atravessei o Atlântico e enterrei minha mãe durante a maior pandemia do século. Voltei a casa de madeira e só encontrei escombros, vendida e derrubada há quase uma década. Foi no apartamento de minha mãe que eu descobri um mundo no qual só poderei habitar através da linguagem. Desde então venho tramando, desobedecendo e decifrando os enigmas da memória.

Sem a pressa do mundo, meu romance começa: à minha mãe, que viu tudo e poupou-me dos detalhes.